EXPOSIÇÃO MARCA SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA EM MOÇAMBIQUE
EXPOSIÇÃO MARCA SEMANA DA CONSCIÊNCIA NEGRA EM MOÇAMBIQUE
Eduardo Castro
Correspondente da EBC na África
Maputo – Como parte das celebrações da Semana da Consciência Negra, o Centro Cultural Brasil-Moçambique inaugurou esta semana a exposição Cartas d’África. É uma coletânea de fotografias e cartas de africanos descendentes de brasileiros que vivem no Togo, na Nigéria, em Benin e Gana. A mostra é organizada pelo diplomata brasileiro Carlos da Fonseca.
Durante três anos, Fonseca localizou famílias que tiveram ascendentes entre os escravos que, depois de libertos, retornaram à África. Essas pessoas escreveram mensagens para os brasileiros, simbolicamente endereçadas aos parentes que ficaram no Brasil.
No livro de assinaturas da exposição, o diplomata diz que “as marcas do Brasil sobreviveram nessa comunidade e, aos poucos, foram se incorporando à bagagem cultural local”. Ele dá como exemplos as festas do Nosso Senhor do Bonfim e o carnaval, a arquitetura do centro de Lagos (Nigéria), Porto-Novo e Uidá (ambos em Benin), a culinária, a fé, a educação majoritariamente católica e até o vocabulário nessas regiões africanas, que também inclui cidades como Aguê (Benin), Lomé (Togo) ou Acra (Gana).
Estima-se em mais de 8 mil o número de escravos libertos que retornaram à África – ou foram para o continente pela primeira vez, já que muitos nasceram no Brasil. O movimento começou em 1830 e seguiu até o início do século 20. Os chamados “retornados” buscavam oportunidades que não tinham no Brasil escravocrata ou recém-saído da escravidão.
Alguns dos “retornados” tiveram participação relevante na história nos países que os acolheram. Francisco Félix de Souza, o Chachá, baiano de nascimento, se estabeleceu no Benin e ficou rico, lucrando com o próprio tráfico negreiro. Ele foi sucedido nos negócios por outro retornado, Domingos José Martins.
Na Nigéria, João Esan da Rocha fez fortuna ao instalar o primeiro poço artesiano da cidade de Lagos, em um bairro até hoje conhecido como Distrito Brasileiro. Adeyemo Alakija, filho do liberto Marcolino Assunção, fundou o primeiro partido político do país, o Action Group.
Em Gana, uma imensa comunidade, conhecida hoje como “Tabom”, (batizada por causa da expressão ‘tá bom’) descende de retornados brasileiros, bem com o primeiro presidente do Togo, Sylvanus Olympio, morto no poder, em 1963.
A exposição, que é itinerante, fica em Maputo até o dia 2 de dezembro. Ela já esteve nos países retratados pelas cartas e no Congresso Nacional, em Brasília. Também estão sendo planejadas montagens em Cabo Verde, Angola e São Tomé e Príncipe.
Edição: Aécio Amado